sugestões de filmes para julho

capoeira no J.B. II

roda-carybé

Berimbau tocou

Vai ter jogo de angola iôiô

Vai ter jogo de dentro iôiô

Vai ter jogo de fora iáiá

Berimbau tocou…

Hoje tivemos reunião na Fundação Curro Velho. A Primeira oficina será realizada no mês de agosto (cronograma a ser montado), e será de Capoeira Angola. Nossos agradecimentos ao diretor de extensão, o Emerson.

Abaixo segue a proposta feita:

O contexto:

O Assentamento João Batista II foi ocupado em 15 novembro de 1998, por 850 famílias. Em 2001 a área foi desapropriada. Situada a cerca de 20 km do centro do município de Castanhal/ PA, hoje nela residem mais de 120 famílias, as quais vivem da agricultura familiar, criação de gado leiteiro, caprinos e ovinos, mercado informal e prestação de serviços. Em seu entorno: pequenos agricultores “colonos”, a quilombola, São Pedro, e a  Bacuri. É composto por pessoas de regiões variadas do Brasil. As atividades culturais são as realizadas pela APM da escola Roberto Remige, onde esta diversidade se mostra nas apresentações. O entretenimento comum é reunir-se no bar, no campo de futebol, nos igarapés. Não há espaços construídos pelo poder público para esporte, lazer e cultura. A maioria dos jovens participa dos trabalhos da família em lotes, mas almeja o modo de vida urbano, encontrando poucas alternativas de incursão social local; uma das causas de problemas com drogas e violência; uma perda para a realização dos objetivos comunitários.

Sobre os proponentes:

A Associação de Pais e Mestres da Escola de Ensino Fundamental Roberto Remige tem o objetivo de promover a cooperação entre escola e comunidade, a conservação dos espaços; acompanhamento do ensino/aprendizagem; administração de recursos; relações entre pais; professores e alunos; incentivo a organização política estudantil. Alguns de seus membros também fazem parte do Coletivo de Educação, entre os quais há o compromisso de ampliar as discussões sobre cultura e educação, valorizar a identidade e diversidade local e, acionar o poder público e parcerias ao desenvolvimento de projetos. A escola atende também alunos das comunidades vizinhas.

Seu projeto político-pedagógico é pautado na Pedagogia do Movimento (MST). @s educadores/as ressaltam que a arte e a cultura são renovadoras da consciência e combatem o comodismo. Acreditam em uma educação que desenvolva não só o intelecto, mas as capacidades do indivíduo em sua totalidade: corpo, vivência, afetividade.

Através da APM e do coletivo, realizam-se as Noites Culturais e as Místicas, a evocar as memórias de luta do Assentamento e o sentimento de pertença à comunidade, ao engajamento sócio-político e cultural e à melhoria da qualidade de vida. Trabalham principalmente com o público jovem, alguns em busca de uma prática comunitária, outros um tanto desmotivad@s com a situação local; e com as crianças, ansiosas por descobertas e estímulos a suas potencialidades; assim como a interação destes com os mais velhos, integrando o ensino/aprendizagem escolar ao cotidiano familiar campesino.

Propostas (dentro das perspectivas citadas acima):

Capoeira

Durante a fase de acampamento, o Assentamento entrou em contato com a capoeira, através de oficina com um voluntário. Nas reuniões com o coletivo e conversas informais, @s jovens manifestam a vontade de jogar novamente, recordam toques de pandeiro, berimbau e os movimentos, e falam inclusive em formar um grupo.  Esta proposta consiste, portanto, na realização de oficinas para esse fim.

A capoeira tem origens na resistência à escravidão de negros e negras no Brasil, a familiaridade com o meio rural está presente nas cantigas, nos corpos, nos materiais de que são feitos os instrumentos musicais. Por isso, uma cultura fértil para desenvolver as capacidades criativas de jovens e crianças, de acordo com a realidade campesina e de luta social. Uma parte considerável da população do João Batista é afro-descendente, a capoeira seria um canal à valorização da identidade negra e da diversidade étnica e cultural no campo.

Através dela se pode educar de acordo com as diretrizes da lei 10.639/03, de ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas públicas e particulares. Os educadores da Roberto Remige ainda estão sem acesso aos cursos de capacitação e materiais didáticos para aplicá-la. A capoeira é fonte popular de conhecimento histórico e cultural, uma  forma de educação física e artística, constituída por saberes de grupos historicamente excluídos das instituições educacionais. O contato com ela seria estimulante para esta busca.

Para concluir, é preciso mencionar os múltiplos benefícios que pode trazer, como diz o corrido: “pra homem, menino e mulher”. Por se tratar de uma atividade lúdica, propicia a re-significação  simbólica do cotidiano e a reflexão vivencial sobre o (si) mesmo. “A roda da capoeira é a roda da vida”, onde o sujeito se encontra envolvido de forma integral, em seus aspectos psicológicos, físicos e sociais, expressando-se por variadas linguagens (a oralidade, a música, a dança, o teatro). E finalmente, como forma de convivência e união do grupo, que a tem como foco de diálogo comum, pelo qual re-constroem valores e sentidos.

  • Indicação de instrutores

Estes/as dois capoeiristas estão como indicações nossas, principalmente, por terem prática com educação pela capoeira, inclusive em comunidades rurais quilombolas como Macapazinho, Itacoã e Umarizal. A escolha de uma  capoeirista como instrutora objetiva estimular ainda mais as mulheres ao jogo:

Juliana Ferreira Tourinho é capoeirista, formada na Escola de Teatro e Dança da UFPA, finalizando o curso de Artes Visuais na UFPA, com experiência na área de ensino/aprendizagem, entre oficinas e cursos em escolas públicas e particulares de Belém. Contato: 84129054 / 3272 9416.

Edimar Augusto é treinel de capoeira, vinculado ao grupo mineiro “Eu sou Angoleiro”, trabalha como funcionário público da SEDUC, desenvolveu curso de capoeira angola durante quatro anos na UFPA, ministrou oficina na Fundação Curro Velho, e atualmente contribui com um projeto de capoeira com crianças do bairro da Terra Firme.

Teatro

O MST foi o responsável pela ocupação das terras que hoje correspondem ao João Batista II. Este movimento social tem uma ligação histórica com o teatro, por meio da associação com o Centro de Teatro do Oprimido. Por todo o país, há vários grupos de assentados que passaram por esta escola, cujos princípios são orientados à transformação social através da arte política. No JB, o CTO ainda não chegou.

No teatro as questões relevantes à comunidade podem ser visualizadas em destaque e, o mais importante, vivenciadas. Ele proporciona o exercício da expressão, iniciativa, criatividade, do “desejo de ser”; a experiência de encarnar múltiplos papéis (“o outro”), para a compreensão mútua e quebra de estereótipos; as relações e conflitos silenciados no cotidiano, concretizados na esfera lúdica, como incentivo à consciência e prática de novos olhares.  Na verdade o dia-a-dia é repleto de teatralidade, sendo o estudo teatral um caminho para a observação deste fazer (saber) em nós e nas sociedades, seu aprofundamento (teórico, metodológico e técnico),  sua potência transformadora.

Diante da presença massificada da “grande mídia” como  exemplo de representação da vida, é fundamental um meio por onde expressem seu contexto próprio, seus pontos de vista, e fomentem o pensamento crítico sobre os demais meios de informação e conhecimento. Principalmente depois da chegada da energia elétrica (que trouxe vantagens e desvantagens, segundo @s moradores/as), são raros os momentos de reuniões comunitárias. Seria, portanto, também um canal de comunicação entre os assentados, e possivelmente, com outros grupos.

Reciclagem

Dentro do Assentamento e assim como em pequenos e grandes centros urbanos, enfrenta-se a problemática do lixo gerado e a quantidade deste que, sem destino apropriado, muitas vezes acaba por poluir em suas diversas formas (química, visual e etc..) o ambiente, de forma a causar prejuízos a saúde e estética da comunidade. No João Batista não há coleta, o lixo é todo queimado, destino altamente poluente.

A utilização e entendimento dos processos da reciclagem como ferramenta para educação ambiental, pode ser realizada em diversas esferas, seja para o público infantil ou adulto, a partir da adoção de metodologias adequadas, respeitando a linguagem e artifícios assimiláveis para cada grupo. Uma sugestão inicial é a montagem de um “sucatário”, devidamente limpo e com organização específica, a depender da constituição dos materiais, seus fins etc., para facilitar o processo póstumo de reaproveimento.

O processo de redução de resíduos e a reciclagem podem ser feitos a partir de papeis, plásticos (PET’S), madeira e etc., a fim de minimizar grandes gastos já que se espera uma autogestão. Os produtos confeccionados (bancos, objetos diversos, brinquedos, bonecos etc.), além de oferecer uma alternativa de utensílios e estimular a criatividade, podem ser comercializados, o que geraria um tipo de renda. É importante ressaltar que a prática está vinculada à teoria e fundamentada em conceitos ambientais. Desse modo, noções de meio ambiente acrescentariam à população, contribuindo para uma relação harmoniosa com o mesmo e para os cuidados  com a saúde local.

  • Indicação de instrutores:

Cleiton Caminha é ator e artista plástico, participou de grupos como o Circolando e o Entreatos, hoje trabalha como funcionário público da SEDUC, e ministra oficinas de “contação de histórias” e bonecos com material reciclado. No município de Igarapé Açu, desenvolve um trabalho com variados tipos de reciclagem em contextos ribeirinhos. Contato: 3274 7149.

Bruna Maria é estudante de oceanografia. Desenvolve oficinas de educação ambiental e reciclagem com garrafas pet, papietagem e outras técnicas. Contato: 8851 1744.

indeferido

Foi este o resultado divulgado para o Cine Japiim. Nele diz que a APM da Escola Roberto Remige não enviou a planta. Durante a video-conferência, foi informada a possibilidade de um desenho com medidas básicas, sem necessidade de ser profissonal, foi o que fizemos e sim, enviamos. A ata: ela estava no mesmo documento que a declaração de posse da presidente, mas talvez não tenham lido, pois não a identificaram. Mas o vacilo mesmo foi ter mandado apenas o número do CNPJ, quando era necessária a cópia.Primeira experiência, na próxima estaremos mais atent@s.

dedos cruzados

videoconferência

a APM da Escola Roberto Remige está inscrita no edital Cine Mais Cultura (ufa!). Agora é torcer cun nóis pelo Cine Japiim :)

http://www.cultura.gov.br/site/2009/02/18/edital-cine-mais-cultura/

O projeto Cine Japiim pretende levar ao Assentamento João Batista II e comunidades vizinhas, obras que propiciem o fortalecimento das identidades individuais e coletiva; com enfoque na realidade campesina, efeitos da urbanização, e no contato com  experiências diversas no Brasil e no mundo. Promover formação através de debates e outras atividades sobre a linguagem do cinema e as questões exploradas nas obras. Em diálogo permanente com o cotidiano, procurando aproximar as pessoas através da identificação com o espaço, onde possam manifestar-se, compartilhar também suas histórias. Será uma oportunidade para o exercício do olhar sobre a realidade e as mídias, a maneira como se organizam as informações e seus conteúdos. Fomentando assim a capacidade crítica e criativa dos sujeitos com parâmetros alternativos aos massificados, muitas vezes contra-producentes às demandas locais. A “desfetichização” do audiovisual e o incentivo a sua futura apropriação no âmbito da produção podem renovar perspectivas e influenciar positivamente nas relações com “o outro” e o meio, por intermédio de ações educativas e culturais. Haverá trabalhos com outras linguagens, em parceria com a Expedição Vagalume, a Rede Aparelho e o In Bust, levando em conta os valores e sentidos da comunidade, em encontros espontâneos e eventos organizados para trocas de metodologias de compreensão e produção cultural; e através de “cruzamentos”, a expansão das possibilidades de cri-ação.  Fruição da arte, valorização das manifestações locais e contribuição à mobilização social, pelo acesso a tecnologias e bens culturais até então distantes.

expectativas em construção

Quase acabando o novo prédio da Escola Municipal de Ensino Fundamental Roberto Remige:

hoje tem cinema e tem teatro sim senhor!

KIRIKOU É PEQUENO, MAS TEM SEU VALOR!

trailer do filme: http: //www.youtube.com/watch?v=dek6065rdTE

CHOOOORA SANFONA! ATÉ VIRAR BRABULETA…

grupo que o michel participa: http://getm2008.blogspot.com

exibição

kirikou II e os animais selvagens

atenção

adultos também presentes

sabedoria

"o meu avô é assim"

sombras

experimentações

exibicão

pra fazer a horta da escola, criar os bonecos, unir o grupo, pra respeitar @s mais velh@s, acreditar nas crianças, pra dançar e festejar, cultivar, lutar, pra ter paciência, costurar, pra ouvir a natureza, compartilhar o trabalho, pra vencer o medo, desconfiar e ver melhor, gostar de aprender, pra confiar em si, pra não desistir... era muita lição viva vinda de uma gente e de uma terra, descoberta mais semelhante do que se imaginava

diogo em curiosidade gigante e michel, bonequeiro aonde o povo está

diogo em curiosidade gigante e michel, bonequeiro aonde o povo está

nada fácil explicar que cada um veria apenas uma vez...

nada fácil explicar que cada um veria apenas uma vez...

o fernandinho inconformado, pegou um banquinho e se ajeitou bem do lado

fernandinho inconformado, arranjou um banquinho e se ajeitou bem do lado

a mística do brincar

A vivência no Assentamento João Batista II realizou-se no período das férias escolares. Ao grupo destinado a desenvolver futuros projetos na área da educação, não foi possível a observação do cotidiano escolar, então procuramos a aproximação com as crianças e educadores em outros espaços. Ouvimos de alguns pais e mães sobre a “falta do que fazer” d@s pequen@s neste intervalo. Mas acabamos surpreendid@s com os brinquedos e brincadeiras, através das quais propunham soluções para suas dificuldades e começavam a construir suas relações sociais. Não participamos de nenhum ritual organizado da Mística, mas naqueles momentos pudemos senti-la, fortalecendo uma identidade Sem Terrinha e expondo suas múltiplas formas de emergência e contato com os meios e sujeitos internos e externos.

O Assentamento é constituído por famílias que, na maioria, viveram no campo, mas de lá foram expulsas e já moravam na cidade, antes de se integrarem ao MST. Não são propriamente camponesas, e sim assentadas, construindo um espaço rural com outras influências. Passada a ocupação da terra, o projeto de construção de uma identidade coletiva, dentro dos princípios do Movimento, ainda tem pela frente a adaptação ao meio; a situação precária da terra, pós-gado dos tempos do latifúndio; a apropriação de técnicas de produção; o diálogo entre o modelo de formação com as experiências e memórias dos indivíduos; os conflitos entre as intervenções estatais e as reais necessidades da comunidade; as diferenças entre os históricos políticos, culturais de cada um. Além dos ataques constantes de empresários do agronegócio, latifundiários e da grande mídia, como a tentativa de criminalizaçãodo Movimento.

A educadora Dulcirene Pereira dos Santos nos falou da visão do MST sobre o Sem Terra, que não se restringe à falta de terra, mas é um sujeito sonhador e empenhado na criação de uma sociedade justa, sabendo-se integrante de uma história ampla de lutas. A continuidade na definição deste sujeito é desafio fundamental aos Movimentos Sociais, para evitar a regressão da participação social depois de certas conquistas. No MST, a importância dada à escola – pautada na Pedagogia do Movimento, inspirada em métodos como o de Paulo Freire – e às Místicas, mostram o reconhecimento desta necessidade.

No João Batista, todas as crianças estão na Escola Roberto Remige. Os pais  e mães incentivam, embora muitos não vejam com bons olhos as aulas de flauta e não participem ativamente da vida escolar d@s filho@s. Quando falávamos sobre os estudos com as crianças, era comum que elas cantarolassem músicas ou dissessem palavras soltas e formassem frases, nomeando e versando a partir do que estava ao redor.  Mesmo aos que ainda não sabem ler, a palavra escola lembrava histórias – lá eles têm a biblioteca José Martí e são contemplados pelo Projeto da Expedição Vagalume -, mediadas pelos educadores como mais um canal à aprendizagem, inseridas na realidade do campo.

Nos passeios pelo lugar, apresentavam-nos as árvores, os moradores e os caminhos a seguir. Um dia perguntei ao Diogo, de cinco anos, o nome de uma árvore, arriscou quatro diferentes, o que para ele não significou, de forma alguma, não saber. Mais tarde, quando eu já tinha esquecido, ele se lembrou e veio me dizer “é ingazeiro”, perguntara o nome ao avô, sem que eu visse. Em nenhum momento nos trataram como adultos distantes, por sua própria iniciativa, vendo-nos sempre como iguais, a ensinar e aprender. Relação esta estendida ao meio ambiente, aos grupos de amig@s, às atividades domésticas e do lote, ao qual não são obrigados a ir, mas onde costumam realizar o trabalhar-brincar-educar. Na agrovila, os menores tentam confeccionar instrumentos de trabalho, os maiores já saem para colher açaí.

Pelos quintais, ruas e campos, não há muitas limitações de tempo e espaço para as brincadeiras, entre elas: soltar pipa, casinha, pescaria, subir e descer da montanha de terra, escorrega-bunda de folhas e galhos, balanço, interação lúdica com os animais, colher frutas, corridas, subir em árvores, banho de igarapé. Seria extenso demai falar de todas… A casinha da Suzy, por exemplo, de oito anos, é derrubada e construída todos os dias, em vários cômodos de sua casa maior. É toda feita por ela, desde as redes de saca que sustentam o seu peso, às prateleiras de madeira, utilizando-se ainda de outros objetos reciclados. Como as outras crianças, ela assiste bastante televisão, e queria ter uma casa da Barbie, suas bonecas são loiras como a Xuxa, queria um carro para levá-las a passear, e tem como referência de lugar bonito e divertido, a cidade de Belém. A introdução do fetiche consumista pela mídia, mostrando apenas a realidade urbana, burguesa e branca como ideal, faz as crianças se sentirem excluídas e diminui sua auto-estima. Depois de ter percebido o quanto admirávamos suas obras, foi notável o aumento de suas criações e a recepção mais alegre, pois ansiava mostrá-las a nós.

Nos jogos infantis, as crianças cuidam umas da outras, ajudam os menores a nadar no rio, mostram como se pula. Arruma-se uma maneira para que todos participem, se os maiores saltam do morro, os menores não se intimidam em fazer de conta que saltam, enfiando apenas a cabeça na água. O Diogo inclui-se em qualquer conversa, ainda que se coloque a imitar as falas da irmã mais velha. Se não consegue apreender de primeira, pede a ela que repita, para que ele possa repetir corretamente. Meninos e meninas brincam juntos, embora em algumas brincadeiras (soltar pipa, meninos; casinha, meninas) predomine um@ ou outr@; ainda que haja meninas no futebol, as zombarias são freqüentes. Na brincadeira da cabra-cega, quando esta não conseguia pegar ninguém, @s menin@s batiam nela; isto era abafado pelos outr@s ou pelos envolvid@s, que intervinham com outra ação, como pegar a faixa e colocar sobre os próprios olhos, continuando o jogo. Em geral percebemos este defecho para tais situações, com o recurso ao diálogo. Segundo a Dulcirene, as crianças já apresentaram divergências por pertencerem a famílias de associações políticas antagônicas. Mas enfatiza, para assuntos em que seja necessária uma unidade, a comunicação com os pais e mães se dá através delas.

Compreender o mundo da criança, como produtora e transformadora de cultura, pode contribuir para o entendimento e melhoria da sociedade organizada pelos adultos. No caso deste Assentamento, são exemplos do valor da coletividade, desenvoltura à renovação de estratégias, prontidão à concretização dos quereres, manutenção da esperança. Neste contexto não há uma estrutura de lazer pensada especificamente para elas ou séries de brinquedos industrializados à venda, o que as incentiva a criar jeitos próprios de fazer (incluindo releituras dos ecos vindos da cidade). Muitas vezes aos adultos passa desapercebida a importância das ações, do ponto de vista da criança. Assim se cria uma separação entre os dois mundos, onde problemas, soluções e fatos merecedores de discussão não são divididos. Uma observação mais atenta a sua não resignação às situações pré-estabelecidas e como representam a realidade, pode ajudar no diálogo sobre temas como o racismo, o machismo, a violência doméstica, a relação com a mídia, a sexualidade, sustentabilidade, educação ambiental etc, para o prosseguimento da formação humanística da comunidade. E à construção de uma outra perspectiva para tal formação, protagonizada por cada sujeito que compartilhe desta comunidade, reunião de saberes e experiências, os quais se apresentam com riqueza peculiar nas crianças.

Na praça central, ao lado da Igreja, há um concreto onde foi pintado o rosto de Che Guevara, @s Sem Terrinha nos disseram que ele está enterrado lá embaixo, porque lutou por eles. Para a Suzy, Sem Terra significa União. O Diogo achava que era sem terra de “se enterrar”, mas foi confirmar com o avô, que respondeu: “Somos nós”.

CONSTRUINDO NOVOS OLHARES (MULTIDISCIPLINARES) PARA A ATUAÇÃO NO CAMPO: QUINZE DIAS NO ASSENTAMENTO JOÃO BATISTA II, CASTANHAL / PA.

(autora: Debóra Linhares)

Tudo começa com uma experiência ainda pioneira no estado do Pará, o ProCampo[1], cujo objetivo é levar os estudantes do mundo acadêmico, rebuscado em teorias, para o mundo do campo, vivido cotidianamente de saberes e práticas. São estudantes das mais diferentes áreas, perpassando da Medicina à Agronomia, das Artes Visuais à Engenharia Sanitária, (ou – como queiram alguns – pelas Humanas, Naturais, Exatas, etc.). No fim, todos se tornam apenas pessoas, entremeadas ao dia-a-dia do Assentamento João Batista II, em Castanhal / PA, para um caminhar que poucos destes estudantes de fato (re)conhecem e o qual toma forma (e, quiçá, sentido/significado) sob o nome de “Vivência”.

Em meio a esta miscelânea estava eu, única estudante de Psicologia ali existente, imbrincando-me na construção de novas relações com os estudantes que comigo conviviam e vendo-me conseguir passear entre os três grupos previamente estabelecidos pela coordenação (saúde, educação e produção) podendo, assim, perceber na prática a diversidade e maleabilidade do campo Psi. Tais grupos, ao que me parece, foram estabelecidos com o intuito de, até certo ponto, orientar nossas futuras (e pretensas) construções e intervenções junto àquela comunidade.

Esta diversidade de saberes, atrelada às muitas possibilidades que me eram apresentadas, por vezes remeteram-me a aspectos simples como compreender o que é ou quem é a Comunidade e como nós, “estrangeiros”, poderíamos adentrar na mesma. Seguindo aqui as palavras de Góis (2005)[2]:

O que constitui questão central nas discussões acerca do tema “comunidade”, no que diz respeito à sua existência e papel no mundo de hoje, é pensá-la fazendo parte de uma sociedade maior[3]. A comunidade atual reflete a sociedade e, ao mesmo tempo, se diferencia dela, em função de suas particularidades. Assim como reflete os aspectos históricos, culturais, sociais, econômicos, políticos e ideológicos de uma sociedade maior, também se diferencia dela por revelar nos aspectos que reflete uma particularidade, um modo de vida próprio da comunidade[4].

A vivência, por sua vez, permite-nos justamente este olhar mais atento às peculiaridades que compõem as redes relacionais de dada comunidade. Estar no dia-a-dia de uma comunidade, perceber suas normas instituídas, nos leva a uma aproximação mais verdadeira do que seja aquele lugar e das pessoas que o constituem. Indo mais adiante, perceber que ali há também, (tal qual na sociedade cá fora) indivíduos “invisíveis”, como o das pessoas que vivem um mundo, literalmente, à parte: o da loucura.

Foi tecendo dia-a-dia diálogos e caminhadas, inserindo-me nas práticas do trabalho com os adultos e das brincadeiras com as crianças, (portanto, práticas sócio-culturais), que fui deixando o lugar de “estrangeira” e tentado não apenas compreender, mas apreender cada momento, fosse este de âmbito coletivo e público ou num âmbito privado, aqui entendido como os momentos de meu convívio mais íntimo com a família que me “adotou” e que comigo estabeleceu laços de confiança e respeito e com a qual pude discutir desde relações de gênero, gravidez na adolescência, acesso à educação, às muito conhecidas “mazelas” das relações pais – filhos.

Nestes parcos, todavia intensos quinze dias as maiores dificuldades que pude observar na comunidade, como um todo, estão interligadas a questões que também fazem parte de nosso cotidiano nas cidades e que, por se tratarem de temas delicados, transparecem um certo grau de dificuldade em tecer-se um diálogo mais próximo. Penso que as mais evidentes são as questões de gênero, alcoolismo, tabagismo[5], higiene / meio-ambiente e a “ausência” de uma educação sexual preventiva[6]. Contudo, há de frisar-se que é comum às comunidades estabelecerem alguns “vícios” que a mesma deixa de perceber como problemas e naturaliza. Talvez aí seja o ponto chave para a chegada desse “olhar de fora”, quando se pode trabalhar a tentativa de construção de diálogos e intervenções conjuntas, neste caso, estudantes ßà comunidade.

Porém, bem além de perceber estas questões que, queira-se ou não, ainda são vistas em muito sob a ótica da sociedade da qual faço parte, faz-se necessário um diálogo contínuo para, então, dizer-se o que é cada um desses aspectos para esta comunidade. Se, para além dos conceitos normatizadores e medicalizantes de nossa sociedade, isto de fato é vivido/ percebido por esta comunidade como uma dificuldade, um problema, afinal nosso intuito não é o de “criar demandas” e sim de conseguir construir uma relação dialógica e libertadora com os indivíduos desta comunidade, numa perspectiva de coletividade e autonomia destes atores sociais.

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Notas:

[1] Programa de Vivência Estudantil Camponesa – PROCAMPO, um projeto do governo do estado do Pará em parceria com as universidades públicas aqui existentes,a saber, Universidade Federal do Pará – UFPA, Universidade Federal Rural da Amazônia – UFRA e Universidade Estadual do Pará – UEPA.

[2] GÓIS, Cezar Wagner de Lima. Psicologia Comunitária – Atividade e Consciência. Fortaleza: Publicações Instituto Paulo Freire de Estudos Psicossociais, 2005. p. 58.

[3] Grifo nosso.

[4] Ibdem.

[5] No caso do tabagismo, chamou-nos atenção o grande índice de mulheres fumantes, cerca de 80% da população feminina do assentamento, inclusive mulheres jovens grávidas.

[6] “Ausência” que também poderia ser chamada de “silêncio”, não no sentido de não se falar do tema sexo, e sim na maneira como se trata a sexualidade e as práticas sexuais, onde estas parecem ter como única conseqüência a gravidez.


Este blog é feito por estudantes que participaram como bolsistas do Procampo (Programa de vivência estudantil no campo), mas que hoje pretendem desenvolver trabalhos de cunho educativo e cultural no Assentamento João Batista II, como parceiras voluntárias.