
Berimbau tocou
Vai ter jogo de angola iôiô
Vai ter jogo de dentro iôiô
Vai ter jogo de fora iáiá
Berimbau tocou…
Hoje tivemos reunião na Fundação Curro Velho. A Primeira oficina será realizada no mês de agosto (cronograma a ser montado), e será de Capoeira Angola. Nossos agradecimentos ao diretor de extensão, o Emerson.
Abaixo segue a proposta feita:
O contexto:
O Assentamento João Batista II foi ocupado em 15 novembro de 1998, por 850 famílias. Em 2001 a área foi desapropriada. Situada a cerca de 20 km do centro do município de Castanhal/ PA, hoje nela residem mais de 120 famílias, as quais vivem da agricultura familiar, criação de gado leiteiro, caprinos e ovinos, mercado informal e prestação de serviços. Em seu entorno: pequenos agricultores “colonos”, a quilombola, São Pedro, e a Bacuri. É composto por pessoas de regiões variadas do Brasil. As atividades culturais são as realizadas pela APM da escola Roberto Remige, onde esta diversidade se mostra nas apresentações. O entretenimento comum é reunir-se no bar, no campo de futebol, nos igarapés. Não há espaços construídos pelo poder público para esporte, lazer e cultura. A maioria dos jovens participa dos trabalhos da família em lotes, mas almeja o modo de vida urbano, encontrando poucas alternativas de incursão social local; uma das causas de problemas com drogas e violência; uma perda para a realização dos objetivos comunitários.
Sobre os proponentes:
A Associação de Pais e Mestres da Escola de Ensino Fundamental Roberto Remige tem o objetivo de promover a cooperação entre escola e comunidade, a conservação dos espaços; acompanhamento do ensino/aprendizagem; administração de recursos; relações entre pais; professores e alunos; incentivo a organização política estudantil. Alguns de seus membros também fazem parte do Coletivo de Educação, entre os quais há o compromisso de ampliar as discussões sobre cultura e educação, valorizar a identidade e diversidade local e, acionar o poder público e parcerias ao desenvolvimento de projetos. A escola atende também alunos das comunidades vizinhas.
Seu projeto político-pedagógico é pautado na Pedagogia do Movimento (MST). @s educadores/as ressaltam que a arte e a cultura são renovadoras da consciência e combatem o comodismo. Acreditam em uma educação que desenvolva não só o intelecto, mas as capacidades do indivíduo em sua totalidade: corpo, vivência, afetividade.
Através da APM e do coletivo, realizam-se as Noites Culturais e as Místicas, a evocar as memórias de luta do Assentamento e o sentimento de pertença à comunidade, ao engajamento sócio-político e cultural e à melhoria da qualidade de vida. Trabalham principalmente com o público jovem, alguns em busca de uma prática comunitária, outros um tanto desmotivad@s com a situação local; e com as crianças, ansiosas por descobertas e estímulos a suas potencialidades; assim como a interação destes com os mais velhos, integrando o ensino/aprendizagem escolar ao cotidiano familiar campesino.
Propostas (dentro das perspectivas citadas acima):
Capoeira
Durante a fase de acampamento, o Assentamento entrou em contato com a capoeira, através de oficina com um voluntário. Nas reuniões com o coletivo e conversas informais, @s jovens manifestam a vontade de jogar novamente, recordam toques de pandeiro, berimbau e os movimentos, e falam inclusive em formar um grupo. Esta proposta consiste, portanto, na realização de oficinas para esse fim.
A capoeira tem origens na resistência à escravidão de negros e negras no Brasil, a familiaridade com o meio rural está presente nas cantigas, nos corpos, nos materiais de que são feitos os instrumentos musicais. Por isso, uma cultura fértil para desenvolver as capacidades criativas de jovens e crianças, de acordo com a realidade campesina e de luta social. Uma parte considerável da população do João Batista é afro-descendente, a capoeira seria um canal à valorização da identidade negra e da diversidade étnica e cultural no campo.
Através dela se pode educar de acordo com as diretrizes da lei 10.639/03, de ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas públicas e particulares. Os educadores da Roberto Remige ainda estão sem acesso aos cursos de capacitação e materiais didáticos para aplicá-la. A capoeira é fonte popular de conhecimento histórico e cultural, uma forma de educação física e artística, constituída por saberes de grupos historicamente excluídos das instituições educacionais. O contato com ela seria estimulante para esta busca.
Para concluir, é preciso mencionar os múltiplos benefícios que pode trazer, como diz o corrido: “pra homem, menino e mulher”. Por se tratar de uma atividade lúdica, propicia a re-significação simbólica do cotidiano e a reflexão vivencial sobre o (si) mesmo. “A roda da capoeira é a roda da vida”, onde o sujeito se encontra envolvido de forma integral, em seus aspectos psicológicos, físicos e sociais, expressando-se por variadas linguagens (a oralidade, a música, a dança, o teatro). E finalmente, como forma de convivência e união do grupo, que a tem como foco de diálogo comum, pelo qual re-constroem valores e sentidos.
Estes/as dois capoeiristas estão como indicações nossas, principalmente, por terem prática com educação pela capoeira, inclusive em comunidades rurais quilombolas como Macapazinho, Itacoã e Umarizal. A escolha de uma capoeirista como instrutora objetiva estimular ainda mais as mulheres ao jogo:
Juliana Ferreira Tourinho é capoeirista, formada na Escola de Teatro e Dança da UFPA, finalizando o curso de Artes Visuais na UFPA, com experiência na área de ensino/aprendizagem, entre oficinas e cursos em escolas públicas e particulares de Belém. Contato: 84129054 / 3272 9416.
Edimar Augusto é treinel de capoeira, vinculado ao grupo mineiro “Eu sou Angoleiro”, trabalha como funcionário público da SEDUC, desenvolveu curso de capoeira angola durante quatro anos na UFPA, ministrou oficina na Fundação Curro Velho, e atualmente contribui com um projeto de capoeira com crianças do bairro da Terra Firme.
Teatro
O MST foi o responsável pela ocupação das terras que hoje correspondem ao João Batista II. Este movimento social tem uma ligação histórica com o teatro, por meio da associação com o Centro de Teatro do Oprimido. Por todo o país, há vários grupos de assentados que passaram por esta escola, cujos princípios são orientados à transformação social através da arte política. No JB, o CTO ainda não chegou.
No teatro as questões relevantes à comunidade podem ser visualizadas em destaque e, o mais importante, vivenciadas. Ele proporciona o exercício da expressão, iniciativa, criatividade, do “desejo de ser”; a experiência de encarnar múltiplos papéis (“o outro”), para a compreensão mútua e quebra de estereótipos; as relações e conflitos silenciados no cotidiano, concretizados na esfera lúdica, como incentivo à consciência e prática de novos olhares. Na verdade o dia-a-dia é repleto de teatralidade, sendo o estudo teatral um caminho para a observação deste fazer (saber) em nós e nas sociedades, seu aprofundamento (teórico, metodológico e técnico), sua potência transformadora.
Diante da presença massificada da “grande mídia” como exemplo de representação da vida, é fundamental um meio por onde expressem seu contexto próprio, seus pontos de vista, e fomentem o pensamento crítico sobre os demais meios de informação e conhecimento. Principalmente depois da chegada da energia elétrica (que trouxe vantagens e desvantagens, segundo @s moradores/as), são raros os momentos de reuniões comunitárias. Seria, portanto, também um canal de comunicação entre os assentados, e possivelmente, com outros grupos.
Reciclagem
Dentro do Assentamento e assim como em pequenos e grandes centros urbanos, enfrenta-se a problemática do lixo gerado e a quantidade deste que, sem destino apropriado, muitas vezes acaba por poluir em suas diversas formas (química, visual e etc..) o ambiente, de forma a causar prejuízos a saúde e estética da comunidade. No João Batista não há coleta, o lixo é todo queimado, destino altamente poluente.
A utilização e entendimento dos processos da reciclagem como ferramenta para educação ambiental, pode ser realizada em diversas esferas, seja para o público infantil ou adulto, a partir da adoção de metodologias adequadas, respeitando a linguagem e artifícios assimiláveis para cada grupo. Uma sugestão inicial é a montagem de um “sucatário”, devidamente limpo e com organização específica, a depender da constituição dos materiais, seus fins etc., para facilitar o processo póstumo de reaproveimento.
O processo de redução de resíduos e a reciclagem podem ser feitos a partir de papeis, plásticos (PET’S), madeira e etc., a fim de minimizar grandes gastos já que se espera uma autogestão. Os produtos confeccionados (bancos, objetos diversos, brinquedos, bonecos etc.), além de oferecer uma alternativa de utensílios e estimular a criatividade, podem ser comercializados, o que geraria um tipo de renda. É importante ressaltar que a prática está vinculada à teoria e fundamentada em conceitos ambientais. Desse modo, noções de meio ambiente acrescentariam à população, contribuindo para uma relação harmoniosa com o mesmo e para os cuidados com a saúde local.
- Indicação de instrutores:
Cleiton Caminha é ator e artista plástico, participou de grupos como o Circolando e o Entreatos, hoje trabalha como funcionário público da SEDUC, e ministra oficinas de “contação de histórias” e bonecos com material reciclado. No município de Igarapé Açu, desenvolve um trabalho com variados tipos de reciclagem em contextos ribeirinhos. Contato: 3274 7149.
Bruna Maria é estudante de oceanografia. Desenvolve oficinas de educação ambiental e reciclagem com garrafas pet, papietagem e outras técnicas. Contato: 8851 1744.